Depois de um período sem produzir o CEO News, retomei minha curadoria de leituras e encontrei algumas matérias que, quando colocadas lado a lado, contam uma história interessante.
Temos um estudo mostrando que o brasileiro começa a perder autonomia funcional cerca de uma década antes do europeu. Outro mostrando que hábitos ruins já deixam marcas mensuráveis por volta dos 36 anos. Ao mesmo tempo, a OMS alerta para uma escassez global de profissionais de saúde, enquanto quase metade de determinados conteúdos de saúde que circulam no TikTok já pode ser produzida por inteligência artificial e por “médicos” que sequer existem.
E, no meio disso, surge uma nova fronteira para o mercado de emagrecimento: depois de aprender a perder peso de maneira muito mais eficiente com os GLP-1, a ciência começa a perguntar como fazer isso preservando músculo e função.
Quando coloco tudo isso junto, minha leitura é simples:
talvez tenhamos falado demais sobre lifespan — quantos anos vamos viver — e ainda pouco sobre healthspan: por quantos desses anos continuaremos independentes, funcionais e capazes de viver bem.
Longevidade sem autonomia é uma conta incompleta
Uma das leituras que mais me chamou atenção foi um estudo comparando mais de 30 mil pessoas no Brasil e na Europa. Os pesquisadores analisaram atividades básicas e instrumentais do cotidiano e encontraram uma diferença relevante: no grupo brasileiro, limitações funcionais aparecem mais cedo. A comparação sugere algo próximo de uma década de diferença entre os dois contextos.
Isso muda bastante a conversa sobre longevidade.
Não estamos falando apenas de viver até os 90. Estamos falando de conseguir chegar aos 70, 80 ou 90 tomando banho sozinho, trabalhando se desejar, viajando, andando, administrando a própria vida e mantendo capacidade física e cognitiva.
E há uma provocação importante por trás desse dado: longevidade não é somente biologia. É contexto.
Escolaridade, acesso à saúde, doenças crônicas, ambiente, atividade física e condições socioeconômicas vão acumulando efeitos ao longo de décadas. O estudo é observacional e não permite afirmar causalidade, mas o sinal é muito relevante: envelhecer bem também é consequência do ecossistema no qual uma pessoa vive.
Na minha leitura, isso muda inclusive a maneira como devemos pensar produtos e serviços de longevidade no Brasil.
Talvez a promessa mais relevante não seja simplesmente “viver mais”.
Talvez seja preservar autonomia por mais tempo.
A partida dos 60 começa muito antes
Outra leitura interessante trouxe uma manchete provocativa: “os dez anos mais importantes para sua saúde acontecem dos 36 aos 46”.
Eu tomaria cuidado com a literalidade dessa frase. Não existe uma chave biológica que vira aos 36 anos.
Mas o estudo que está por trás dela é bastante interessante. Pesquisadores finlandeses acompanharam participantes durante mais de 30 anos e observaram que tabagismo, consumo elevado de álcool e baixa atividade física já estavam associados a piores indicadores físicos e mentais a partir da metade dos 30 anos. Quanto mais longa a exposição aos hábitos de risco, maior o impacto observado.
Para mim, a mensagem é outra:
a medicina da longevidade precisa começar muito antes da velhice.
Aos 40, não estamos “jovens demais” para pensar em envelhecimento. Talvez estejamos exatamente no momento em que ainda existe enorme capacidade de construir reserva muscular, cardiovascular, metabólica e cognitiva para as décadas seguintes.
Essa mudança de mentalidade me interessa bastante.
A longevidade do futuro provavelmente será menos sobre tentar reverter aos 70 tudo aquilo que negligenciamos durante 30 anos e mais sobre construir capacidade quando ainda temos tempo e biologia a favor.
E quem vai cuidar de todo mundo?
Essa discussão ganha uma camada ainda mais relevante quando olhamos para a estrutura do sistema de saúde.
Dados recentes apresentados pela OMS mostram que existem hoje mais de 70 milhões de trabalhadores da saúde e assistência no mundo, e que a densidade global desses profissionais cresceu 52% desde 2006. Mesmo assim, permanece uma projeção de déficit global de aproximadamente 11,1 milhões de profissionais até 2030.
Há uma dinâmica particularmente interessante: pacientes e profissionais estão envelhecendo ao mesmo tempo.
Em dados de 122 países, quase um em cada quatro médicos já tem mais de 55 anos; nas economias de alta renda, essa proporção se aproxima de um em cada três. A OMS estima que 67 países podem não ter profissionais suficientes em 2030 para manter o mesmo nível de serviços de 2024.
Isso me faz pensar em algo que vai além da contratação de médicos.
Se teremos mais demanda e proporcionalmente menos pessoas disponíveis para atendê-la, tecnologia, prevenção e novos modelos assistenciais deixam de ser opcionais.
A inteligência artificial entra exatamente nessa equação.
Mas ela traz consigo outro problema.
Na era da IA, confiança passa a ser infraestrutura
Uma matéria sobre TikTok trouxe um dado que me impressionou: em uma análise de 1.198 vídeos de saúde, aproximadamente 40% apresentavam conteúdo gerado por IA; em determinadas buscas, a proporção chegava a 84%. Parte desses conteúdos utilizava avatares que se apresentavam como profissionais de saúde inexistentes.
É quase um paradoxo.
Precisaremos de tecnologia para ampliar a capacidade do sistema de saúde, mas a mesma tecnologia reduz dramaticamente o custo de fabricar autoridade.
Hoje é possível criar uma pessoa que não existe, dar a ela um jaleco, uma voz segura, uma clínica ao fundo e fazê-la distribuir uma orientação médica para milhões de pessoas.
Num mundo em que qualquer pessoa pode parecer especialista, confiança, procedência e reputação passam a valer ainda mais.
Para médicos e clínicas, vejo uma oportunidade enorme aqui.
Marca médica deixará de ser apenas comunicação. Será também uma espécie de selo de autenticidade.
Quanto maior o volume de conteúdo sintético, maior será o valor de profissionais reais, com trajetória verificável, responsabilidade clínica, presença física e capacidade de estabelecer relação.
Tecnologia vai escalar informação. Mas acredito que confiança continuará escalando de outra maneira.
Depois do peso, a próxima discussão será função
E existe mais um movimento que acho particularmente interessante.
Em setembro, a FDA aprovou o apitegromabe, primeiro tratamento aprovado para atrofia muscular espinhal que atua diretamente sobre a perda muscular, bloqueando a ativação da miostatina.
Até aí estamos falando de uma doença rara.
Mas pesquisadores fizeram outra pergunta: se conseguimos atuar nesse mecanismo muscular, seria possível utilizá-lo para reduzir a perda de massa magra associada ao emagrecimento com medicamentos?
Em um estudo fase 2 publicado na Nature Medicine, 102 adultos com sobrepeso ou obesidade receberam tirzepatida. Metade também recebeu apitegromabe. Após 24 semanas, a perda de peso total foi semelhante, mas o grupo que recebeu o medicamento experimental perdeu 1,6 kg de massa magra, contra 3,5 kg no grupo controle — aproximadamente 55% de preservação relativa de massa magra.
Ainda é investigação. O apitegromabe não está aprovado para obesidade.
Mas, estrategicamente, o movimento é fascinante.
Nos últimos anos, a grande inovação foi conseguir fazer o paciente perder muito peso.
A próxima fronteira pode ser:
como fazê-lo emagrecer preservando músculo, força e funcionalidade?
Isso conversa diretamente com longevidade.
Porque o número da balança é apenas parte da história. Massa muscular, força, mobilidade e capacidade funcional são ativos fundamentais para envelhecer com independência.
O que isso provoca na nossa leitura de mercado
Quando observo esses sinais em conjunto, vejo uma mudança importante na definição de valor em saúde.
Por muitos anos, boa parte do nosso mercado esteve organizada em torno de tratar doença ou melhorar aparência.
A próxima etapa parece caminhar para algo mais amplo:
preservar capacidade.
Capacidade de se mover.
Capacidade de pensar.
Capacidade de trabalhar.
Capacidade de se recuperar.
Capacidade de continuar vivendo com independência.
Isso tem implicações importantes para clínicas médicas.
Significa pensar menos em procedimentos isolados e mais em jornadas.
Significa conectar dermatologia, composição corporal, atividade física, metabolismo, saúde mental, sono, cognição e prevenção sem transformar tudo em uma grande promessa de “anti-aging”.
E significa reconhecer que tecnologia será uma parte cada vez maior desse cuidado, mas que reputação e confiança continuarão sendo elementos centrais da experiência médica.
No nosso grupo, essa discussão conversa diretamente com o amadurecimento da nossa visão de dermatologia e longevidade. Não para abandonar o nosso core, mas para entender melhor o paciente que estará diante de nós nos próximos dez ou vinte anos.
Um paciente que provavelmente viverá mais.
A questão será descobrir como ajudá-lo a viver melhor durante esses anos adicionais.
Para mim, essa é uma das conversas mais interessantes da medicina e do wellness neste momento.
Leituras que inspiraram esta edição
O brasileiro perde autonomia dez anos antes do europeu — uma reflexão sobre funcionalidade, desigualdade e longevidade no Brasil. Ler na FitFeed
4 em cada 10 vídeos de saúde no TikTok são feitos por médicos que não existem — IA, desinformação e o novo valor da confiança médica. Ler na FitFeed
Os hábitos de saúde e seus efeitos já na meia-idade — estudo longitudinal publicado no Annals of Medicine. Ler o estudo no PubMed
O déficit mundial de profissionais de saúde — dados recentes da Organização Mundial da Saúde. Consultar os dados da ONU/OMS
Apitegromabe e preservação de massa magra durante tratamento com tirzepatida — estudo fase 2 publicado na Nature Medicine. Ler o estudo
