Neste mês, fiz uma curadoria de algumas leituras que me chamaram atenção. À primeira vista, elas falam de temas diferentes: longevidade, inteligência artificial, sono, saúde mental, medicina preditiva e os efeitos indiretos do avanço dos GLP-1. Mas, quando coloco tudo isso lado a lado, a leitura que faço é bastante clara: o nosso mercado está mudando de eixo.
Tenho olhado para isso da seguinte forma: durante muito tempo, saúde, estética, wellness e performance foram tratados como universos separados. Hoje, esse desenho começa a perder força. O paciente já não busca apenas resolver uma queixa pontual. Ele quer entender melhor o próprio corpo, prever riscos, envelhecer com mais qualidade, ter mais energia, dormir melhor, performar melhor e sustentar sua imagem ao longo do tempo.
Na minha visão, o que essas leituras mostram é que saúde está deixando de ser episódica e está se tornando um processo contínuo, monitorado e cada vez mais personalizado.
Isso aparece de forma muito clara quando vemos movimentos como o de Bryan Johnson, que anunciou uma plataforma de longevidade baseada em biomarcadores, dashboard com IA e revisão médica opcional, ou a entrada da Perplexity em saúde com uma proposta de consolidar exames, wearables e histórico clínico para projetar cenários futuros. Em ambos os casos, o sinal é o mesmo: a lógica do cuidado está migrando de uma visão reativa para uma visão mais integrada, mais preditiva e mais orientada por dados.
O paciente do futuro não vai separar dermatologia, wellness, metabolismo, longevidade e saúde mental da forma como o mercado separou até aqui. E, para mim, esse é um dos sinais mais importantes deste momento.
Outro ponto que me chama atenção é a velocidade com que a inteligência artificial está entrando de vez na saúde. Não mais como curiosidade, mas como infraestrutura. No estudo mais recente da McKinsey sobre generative AI em healthcare, metade das organizações americanas pesquisadas já reportava implementação de gen AI no fim de 2025. Para mim, isso muda a lógica operacional do setor: produtividade, integração de dados, experiência do paciente e capacidade de decisão passam a depender cada vez mais de tecnologia bem aplicada. Já não é apenas uma pauta de inovação. É uma pauta de competitividade.
Também tenho prestado atenção em como o wellness está avançando sobre temas que antes eram tratados como adjacentes. Sono e saúde mental são dois exemplos claros. O rumor sobre uma possível bebida da Red Bull voltada ao sono é simbólico justamente por isso: até marcas historicamente associadas a energia e performance começam a orbitar o território do descanso e da recuperação. Na mesma direção, a leitura da McKinsey sobre novos modelos de financiamento e task-sharing em mental health reforça como saúde mental deve ganhar escala com novas estruturas de acesso e distribuição de cuidado.
Outro tema que reforça essa mudança é a medicina preditiva. Tenho visto crescer o interesse por exames e ferramentas capazes de antecipar riscos antes mesmo dos sintomas se manifestarem. Isso apareceu tanto na lógica das plataformas de monitoramento contínuo quanto em leituras recentes sobre exames de sangue com potencial de indicar risco futuro de Alzheimer com antecedência. Mais do que o dado em si, o que me chama atenção é o que ele representa: o mercado de saúde está caminhando para prevenção, rastreio e antecipação.
E, claro, o GLP-1 segue como um dos movimentos mais relevantes de todos. Tenho falado bastante sobre isso porque, sinceramente, acredito que isso ainda está só começando. O impacto vai muito além do emagrecimento. GLP-1 muda comportamento, expectativa, percepção corporal e a própria régua de comparação do paciente. E, junto com isso, surgem efeitos de segunda ordem que abrem novas demandas. Um bom exemplo é a discussão crescente sobre queda de cabelo em usuários dessas terapias, algo que já começa a ser lido como uma nova oportunidade para a indústria da beleza, do cuidado capilar e da medicina estética.
Quando trago essa leitura para dentro do nosso grupo, meu ponto não é dizer que precisamos abandonar o nosso core. Muito pelo contrário. Nosso core hoje é dermatologia, e ele continua extremamente relevante. O que eu acredito é que precisamos amadurecer a forma como entendemos o paciente.
Porque esse paciente está ficando mais complexo. Ele não quer apenas tratar pele. Ele quer tratar vitalidade, imagem, envelhecimento, composição corporal, recuperação, bem-estar e performance de forma integrada. E isso abre espaço para novos diálogos, novos protocolos, novas conexões com outras especialidades, novas parcerias e, eventualmente, novas frentes de negócio.
É por isso que tenho olhado para essas leituras menos como curiosidades de mercado e mais como sinais estratégicos. Elas apontam para oportunidades reais de ampliar narrativa, desenvolver novas ofertas e aprofundar a forma como nos posicionamos diante desse novo contexto. Não por modismo. Mas por evolução natural da demanda e do próprio mercado.
No fim, a minha leitura deste mês é simples: o futuro não será de quem apenas executa bem o que sempre fez. Será de quem consegue preservar excelência no seu core e, ao mesmo tempo, expandir sua leitura de mercado, do paciente e das oportunidades que estão surgindo ao redor.
Essa é a reflexão que quis compartilhar neste CEO News.
Leituras que inspiraram esta edição
- Bryan Johnson anuncia plataforma de longevidade que monitora sua saúde
- Perplexity lança IA que prevê sua saúde nos próximos 10 anos
- Red Bull pode lançar sua primeira bebida para dormir melhor
- McKinsey | Generative AI in Healthcare
- McKinsey | The future is shared: financing task-sharing programs in mental health
- GLP-1 e queda de cabelo: uma nova frente de demanda
